Segunda-feira, Outubro 26, 2009

O Rapaz das Histórias de Hoje e de Amanhã


Se eu tocar baixinho uma música que tu gostas, prometes que sorris? Mesmo que seja um sorriso disfarçado, um sorriso envergonhado, daqueles pintado a pincel que eu esborrato com a ponta dos dedos. Se eu te tocar levemente, mesmo que não gostes e te incomode, prometes que me dizes para parar? Uma aversão inconsciente ao tacto e à sensibilidade dos poros que me faz rir e pensar o quão estranho podes ser. Se eu te escrever sem razão tu prometes que questionas? Mesmo que já saibas, mesmo que adivinhes a parábola, antecipes a palavra e não denuncies essa intenção. E se eu te disser baixinho o quanto gosto de ti, tu guardas? Este tesouro que cabe numa mão, que pesa às vezes uma tonelada, que estilhaça tudo como uma granada e que dizem que provoca arritmias no coração.


Helena Bellamy

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Requiem


Calço as botas e desligo a televisão. Agarro no saco e saio. Deixo atrás de mim um asilo de comodidades, bibelots de marfim intocáveis que nunca serviram para coisa alguma. Entro na café e peço uma chávena de chá preto e bebo-o desalmadamente até escaldar o âmago. O dia está como eu gosto. Imperfeito.
O sol do Verão começa a despedir-se a as árvores a desnudarem-se lentamente como se entrassem num jogo sedutor. A ostentação de um corpo esguio e belo que se vai mostrando pouco a pouco impressiona-me. E as folhas, débeis, parecem-me páginas de livros, empoeiradas, desmerecidas… Deveriam compor-lhes um requiem. Assalta-me a ideia de ir a casa buscar a câmara. Apetecia-me fotografa-las a pairar e a cair tenramente no chão. Começo a trautear um “Vous marchiez en vainqueur au bras d`une demoiselle. Mon Dieu!Qu`elle était belle! J`en ai froid dans le coeur.”, interrompe-me o telemóvel. Uma voz agradável e que eu conheço bem pergunta-me o que ando a fazer. E eu respondo a sorrir, chutando um dente-de-leão – Ando à procura do Tempo, meu amor.

"A careless bird is complicated. An empty nest still leaves a space." – Au Revoir Simone.


Helena Bellamy
Desenho: Ode por Toinjoints (António João Santos) em deviantArt.com

Segunda-feira, Agosto 24, 2009

O Pescador de Sonhos


Não me apanhes. Deixa-me passar entre os teus dedos. Já te disse que detesto quando raspas a pele na areia? Causa-me arrepios e fazes com que as ondas quebrem mais depressa nas pedras. Devias-me oferecer um carrossel e um doce em espiral, colorido, que só as formigas tem o prazer de devorar obstinadamente. Também gosto de búzios e corais. Porque é que nunca ouves o que te digo? Até parece que és tu, pescador de sonhos, quem vive fechado na concha bem lá no fundo do mar…
Helena Bellamy
Imagem: Ophelia and Others por SugarRock99

Quinta-feira, Abril 30, 2009

Lemniscata



O Espanta Espíritos atribui ao Contador de Estrelas o Prémio Lemniscata.

Quarta-feira, Abril 29, 2009

A Fotografia e o Livro...


Surgiu o convite... E entre o compasso de um desenho ainda em esboço, nasceu a imagem.
Uma incursão pela Alta Vila fez-me redescobrir imagens de outros tempos, recriar momentos e explorar todas as sensações que a luz invoca. Quer pela copa das árvores seculares, quer pelas entranhas das pedras e da terra, quer pela musicalidade das palavras do autor.

Objectivo: Unir através de uma ponte todas as notas soltas desta estória onde os sentimentos vibram numa cálida entoação entre o físico e a essência.

Obrigada Bruno pelo convite.

"Queria fotografá-lo, não sei porquê mas uma ânsia de capturar aquele rosto inundava-me."

Título: Para Além da Carne
Autor: Bruno Abel Oliveira
Editora: Papiro Editora
Fotografia:Helena Bellamy

Terça-feira, Fevereiro 10, 2009

Caderno



Escrevi o teu nome, vezes sem conta, numa folha rasgada de um caderno decrépito que uso, de vez em quando, para dilapidar palavras. Escrevi e ao escreve-lo fui construindo raízes, imaginando lugares, edificando nascentes cujo som deveria apagar todos os silêncios. Dancei de olhos fechados, fotografei fantasmas, e ofereci sorrisos… Nada disto tu viste, nada disto te contei, embora tudo te tivesse pertencido, como uma dádiva ausente de contrapartida…
...
Quem não acredita nas sombras, tem de acreditar nas coisas que tem como indiscutíveis, tem de acreditar nas paredes e nas montanhas, nas árvores e nas cinzas, nos ossos e na pele.
...
Eu acredito na continuidade das sensações. Acredito que para sempre ouviremos o som daquele mar, naquela noite ausente de pôr-do-sol, acredito para sempre naquele chorrilho de asneiras que nos saem da boca em serões de gargalhadas e desatinos, acredito para sempre no abraço quente que perdura a noite inteira, no som dos risos e dos lábios, no toque da pele e no silêncio, aquele silêncio tão íntimo, tão intenso, que chega a doer de tanto prazer.

Helena Bellamy
Imagem: Blue Rose Departure by Rickenbacker in deviantART
A ouvir: O roçar das folhas

Terça-feira, Janeiro 20, 2009

Penso e Pensarei Sempre


Penso como será…
Se cheira a rio ou a pedras, se desliza suave como a seda, se sabe a chocolate ou a chá. Se tem a textura da erva ou da terra.
Penso como será…
Se tem estrelas nos dedos, se se esconde quando tem medo, se grita quando o coração aperta, se chora se já não houver caminho.
Penso como será…
Se terá a candura nos olhos, se terá rasgos da idade na pele, se terá gomos de laranja no sorriso.
Hoje, penso como será e pensarei sempre…
Gosto do vazio como gosto das nuvens do céu. Sempre ténues ou soberbas. Altivas ou estilhaçadas. Penso e ao pensar vou construindo o meu lugar… Quer imersa, estendida na terra, quer dispersa, suspensa no ar.


Helena Bellamy


A ouvir: A chuva


Imagem: Dreaming por Muszka em deviantArt.com