Cheira a Outono e a terra… E a páginas de um livro antigo que vou desfolhando devagar. Pertenceu ao meu avô, ao meu avô que tremia das mãos e tinha o cabelo branco como a neve, que tinha um cão chamado Fadista e um melro que me metia medo… Que fazia barquinhos de madeira e pistolas a sério, daquelas que davam tiros e tinham balas amarelas de vime. Faz hoje oito anos que nos deixou… E com ele a voz doce de um contador de histórias.
- Avô… Avô! Conta outra vez a história do cão
e do chapéu.(Pedia eu e a minha prima)…- Outra vez?
- Não querem antes umas anedotas do Bocage? Ou a história dos Músicos de Bremen?
-Não avô, queremos a história do Fiel…
E as palavras que um dia Guerra Junqueiro escreveu faziam-nos abrir os olhos e apurar o ouvido naquele conto triste que no fim nos fazia soluçar.
Como poderia eu imaginar, que tantos anos depois escreveria sobre ele? Que tantos anos depois teria eu de entregar o “gorro” a alguém com tantas pedras atadas à coleira e com a água por tão perto? Apesar de angustiante, não me envergonho de ser como o Fiel, talvez por querer ser como ele pedi tantas vezes ao meu avô para o recordar…
Tenho saudades dos contos, das anedotas, do tabuleiro de damas, do colo do meu avô e desse cão vagabundo … Tenho saudades de um tempo que já passou… Um tempo em que a única pergunta que tinha me deixava tão feliz e fazia com que a repetisse vezes sem conta…
– A que vamos brincar hoje?
(Gente crescida parece tonta, não sabe nada do "faz de conta"!)
Para o meu avô Fernando, com muitas, muitas saudades…
Helena Bellamy
Imagem: Uma fotografia de infância...
4 Pó de Estrelas:
uma bela homenagem...simplesmente lindo
E és linda por isso, meu amor!
Beijinhos
adoro seu blog *-*
Tão bom ler tuas histórias que me perdi por entre contos de magias e músicas por cá.
celebro-te!!
beijinhos.
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